Folionas reclamam que paulistanos não querem beijar na boca

Por Alalao

POR ROBERTO DE OLIVEIRA

“Quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil palhaços”… nos blocos de rua, mas quase nada de beijo na boca.

No Carnaval de rua de São Paulo, com muita animação e gente “diversificada”, uma parcela de folionas transformou em “grito de guerra” o refrão daquela música da Marisa Monte que diz: “beija eu, beija eu, beija eu, me beija.”

Depois de anos sem curtir a folia paulistana, a técnica em nutrição Gisele Franco, 35, foi conferir os blocos numa das regiões mais animadas da capital, Pinheiros.

Rodou 30 km de Aricanduva para acompanhar o João Capota na Alves, bloco que atrai gente bonita, descolada e gringos. Esperava mais de sua “reestreia”. “Os homens estão devagar”, queixou-se. “Estou aqui há mais de duas horas. E não beijei ninguém.”

Percebendo certa tensão no ar, carregada de fumaça de churrasquinho e de spray de espuma, uma das amigas de Gisele tenta pôr “panos quentes” na conversa.

Era a pedagoga Beatriz Câmara, 21. Dizia que ainda era cedo para reclamar e que elas esperavam “beijar muito” até o final do desfile. “É, amiga, mas em uma hora de Parada Gay eu já tinha beijado uns dez”, retrucou Gisele, ligeira.

Outra que concordava que o bloco seguia em marcha lenta era a animadora Virgínia Fleischer, 23. Ela, porém, se dizia cautelosa. “Sou muito exigente e chata. Agora, quando pego, é para arrasar.”

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Após lascar uma beijoca na amiga de Virgínia, o designer Pedro Luiz Verdasca, 23, saiu-se com esta: “Esse pessoal pode até começar exigente, mas depois de umas e outras…”

Algumas impressões, porém, são as que ficam. A professora Mariana Cruz, 24, cruzou a ponte da Casa Verde para conferir o Cordão do Triunfo, na região da cracolândia.

Logo que chegou, percebeu: “O mar não está pra peixe”. Duas horas de folia, e a maré continuava na baixa. “É Carnaval, não sou obrigada a ficar no zero a zero”, criticou.

Ainda mais exaustiva foi a travessia da auxiliar administrativa Criscintia Silva, 25. Ela saiu da Penha à procura de um Carnaval “animadinho” no centro. Decepcionou-se com o que viu: “Não é porque fiquei em São Paulo, enquanto meus amigos viajaram, que vou amargar nessa seca”.

Conformada, a produtora Wendy Kerr, 31, trazia na ponta da língua uma explicação para tal fenômeno: “É o Carnaval coxinha de São Paulo”, disse. “Não tem praia, não tem tesão.” Seu amigo, o fotógrafo Caio Porto, 34, classificou a brincadeira como “ótima”, mas que “ninguém pega ninguém”.

“Nem gripe.”

Pertinho deles, um ambulante ostentava uma placa: “aceito todos os cartões internacionais”. Gritava a seguinte frase: “E falo a sua língua. Se a moça for bonita, ela ainda ganha um beijo”.

O carrinho de bebidas estava abarrotado de garotas —todas pagavam em “cash”.