EMILIO SANT’ANNA
LUCAS FERRAZ
ROBERTO DE OLIVEIRA
DE SÃO PAULO
No meio do bloco, um vendedor trava a língua para explicar à moça do que se trata: “É amesteu, amsteu, amastil”. É sábado de Carnaval, passa das 15h, e o calor não está para aulas de… inglês?
À medida em que os blocos de São Paulo cresceram e apareceram, a folia nas ruas da cidade se estabeleceu como negócio atraente e, pela primeira vez, se tornou palco de uma guerra de cervejarias.
O patrocínio oficial é da holandesa Amstel, que desembarcou há pouco mais de um ano no Brasil, trazida pela Heineken. Pouco conhecida dos foliões, ela dividiu com a Caixa Econômica Federal o direito das ações de marketing. É o segundo ano que o banco participa do evento.

Com auxílio de uma rede de cerca de 4.000 ambulantes cadastrados, acabou “monopolizando” o fornecimento da bebida nos 355 blocos deste ano –um crescimento de 36% em relação a 2015–, repetindo nas vias públicas um fenômeno típico do Sambódromo.
Para as outras marcas há a possibilidade de patrocínios individuais de blocos –para ganhar visibilidade em trios elétricos– e a preferência de uma minoria dos vendedores, que receberam vantagens para fornecer a Amstel.
A contrapartida para as empresas responsáveis pelo patrocínio da festa foi a obrigação de arcar com a instalação da infraestrutura que cerca os desfiles. Gradis, palcos para auxílio de dispersão, diárias de ambulância de remoção e UTI e banheiros químicos –que passaram de 3.000 diárias contratadas em 2015, para 8.108 neste ano. O aspecto profissional só não chegou à qualidade do som de alguns trios –muitos foram criticados pelos foliões.
Dos R$ 10,5 milhões em infraestrutura investidos no Carnaval de rua, 35% vêm dos patrocinadores, alta de 66% em relação ao último ano.
A estimativa, segundo o prefeito Fernando Haddad (PT), é que os blocos movimentem R$ 400 milhões, contra R$ 250 milhões do desfile das escolas de samba no Anhembi. Os números, da SPTuris (empresa municipal de turismo e eventos), incluem a rede hoteleira e outros gastos.
“O Carnaval de rua gera mais atividade econômica porque são mais dias, são mais blocos, é na cidade inteira”, disse Haddad no sábado.

PATROCÍNIO DIRETO
Além do patrocínio oficial da festa, outras cervejarias, assim como a própria holandesa, investiram diretamente nos blocos. A Ambev afirma que a Skol patrocina 63.
Já a Amstel diz que patrocina 14, como Tarado Ni Você e Casa Comigo e Tô de Bowie.
Para eles, a verba é fundamental. Giovanni De Luca, 32, um dos organizadores do Vou de Táxi, estima que o gasto para colocar um bloco na rua gire em torno de R$ 20 mil. Ele diz que seu grupo estuda a proposta de uma marca.
Seja ela qual for, essa cerveja está tão liberada para ser vendida quanto a Amstel, afirma o secretário municipal de Cultura, Nabil Bonduky. Ele diz que o patrocínio oficial é da holandesa, mas todas as marcas podem ser vendidas.
“O que acontece é que os vendedores têm mais facilidade [com a Amstel] para comprar e reabastecer.”
Nos desfiles, caminhões da marca ficam nos locais para reabastecer os ambulantes. A cerveja é vendida por R$ 5, e os comerciantes dizem que a compram por R$ 1 a menos do que as concorrentes.
Há, claro, quem prefira mesmo levar seu isopor e ignorar essa disputa.
Vetada de verdade estão as cervejas em garrafa. Desde sábado, porém, a reportagem encontrou alguns ambulantes vendendo, sem serem incomodados pela fiscalização.
Nabil reconhece que essa estrutura precisa ser reforçada. Pinheiros, por exemplo, diz ele, tem apenas duas equipes para fazer esse trabalho.
Segundo Nabil, na última semana a Skol teve seus produtos apreendidos durante um bloco por ter montado um ponto de reabastecimento.
No Bloco ON, organizado pela Skol e que saiu no sábado, a disputa entre as cervejarias era evidente. O nome do bloco remete à campanha de marketing da marca.
Em 2015, Johnson & Johnson (Sundown), Ambev (Skol) e MTV foram autuados por propaganda irregular.
Em tempo: pronuncia-se “do jeito que se escreve”, explica Neudson de Brito, 32, vendedor, divertindo-se