‘Japonês da Federal’ não seria sensação se tivesse outra ascendência

Por blog alalaô

RODRIGO RUSSO
DE SÃO PAULO

Ele é um dos personagens mais populares deste Carnaval. Máscaras à semelhança de seu rosto são vendidas pelo país, e suas ações no cumprimento de mandados de prisão de políticos e executivos se tornaram tema de uma das marchinhas mais cantadas neste ano.

Há quem considere tudo isso simples piada de ocasião sobre a atuação de Newton Ishii, o “Japonês da Federal”, na Operação Lava Jato. Para o historiador americano e brasilianista Jeffrey Lesser, no entanto, o que está em jogo é bem mais antigo: a representação estereotipada de nipo-brasileiros.

“Se fosse um brasileiro de qualquer outra ascendência, existiria essa marchinha? Acho que não. O japonês tem presença forte na cultura brasileira, e muito estereotipada, associada à linguagem de que é ‘garantido’ [de qualidade atestada]”, avalia Lesser, professor da Universidade Emory (EUA) e pesquisador-visitante no Instituto de Estudos Avançados da USP.

Máscara do policial federal Newton Ishii em fábrica de São Gonçalo (RJ) (Júlio César Guimarães/UOL)

Para Lesser, o que acontece com Newton Ishii é parte de uma longa história no país, “de chamar a atenção para qualidades imaginadas de certos brasileiros”. A linguagem é similar ao que ocorria nos anos 1960, em que o japonês era “‘garantido’, trabalhador e mesmo violento no contexto da ditadura”.

Assim, segundo entrevistas conduzidas por Lesser, os agentes da repressão diziam que os mais violentos da luta armada eram os nipo-brasileiros; inversamente, quem passava pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social) afirmava que os mais violentos ali também eram os nipo-brasileiros.

“Nessas palavras não nacionais usadas por brasileiros há uma interpretação de que o pior do país é o brasileiro, e o melhor é o que vem de fora. No caso atual, o discurso de que precisamos de um japonês para enquadrar os corruptos brasileiros é um preconceito contra ele como cidadão e contra o brasileiro em geral”, afirma Lesser.

Além disso, continua, “ninguém sabe se Newton Ishii de fato é ‘garantido’ ou não”. A realidade dá margem ao ceticismo: em 2003, Newton Ishii foi acusado de facilitação de contrabando e chegou a ser preso em uma operação. Respondeu a processo disciplinar, depois arquivado, e na esfera penal foi condenado a pagar cestas básicas.

Newton Ishii, o ‘Japonês da Federal’, em ação em Curitiba (Giuliano Gomes – 28.nov.15/Folhapress)

Após tal episódio, aposentou-se. Onze anos depois, retornou à Polícia Federal para um período a mais de serviço após determinação do Tribunal de Contas da União que fez com que vários policiais voltassem a trabalhar. Agora, está entre os investigados pelo vazamento da minuta da delação do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró.

“Gostaria muito de entrevistar Newton, saber como ele enxerga isso”, conta Lesser, que também fez pesquisas sobre a participação de japoneses na indústria de filmes paulista nos anos 1960 e 1970, onde a questão do estereótipo estava outra vez presente.
Para diretores e roteiristas, os homens nikkeis tinham sempre papéis de orientais e assexuados, enquanto as mulheres também eram sempre orientais, mas particularmente disponíveis e safadas.

Já para os atores e atrizes, a participação era um rompimento com as comunidades étnicas de seus pais imigrantes, mais fechadas, e eles buscavam ser vistos e entendidos como “brasileiros”.

“Na esfera pública brasileira há pouca discussão sobre estereótipos, mas nas esferas étnicas as pessoas estão ofendidas por serem colocadas em uma caixa com falsas ideias”, pondera Lesser.

“Isso não é parte do jeito brasileiro engraçado e cria impedimentos práticos. O japonês numa entrevista de emprego é visto como bom empregado, mas sem ambição, por exemplo. É muito mais que uma piadinha.”

Escolado na cultura brasileira, Jeffrey Lesser em dado momento da conversa pondera que talvez o Carnaval não fosse o melhor momento para a crítica, mas depois repensa: “Há a visão de que o Carnaval é um exagero, que acontece, acaba e fica por isso mesmo, mas dá para notar continuidades. Não é ruptura com o ano, em termos étnicos, de gênero e de orientação sexual, a festa muitas vezes reforça preconceitos”.